Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004

Do editor
Apresenta-se o quinto número d'Os Animais Evangélicos. Nele:
- tento fazer pouco daquilo que perdoo apenas ao meu falecido avô (por ter sido pastor há quase um século)
- o Timóteo Cavaco destrona a última besta do Apocalipse dos evangélicos: o pós-modernismo
- o Samuel Úria distrai-se durante o culto
- o Tiago Branco apresenta-nos o Oleg
- o Samuel Nunes ousa fazer apologética às custas dos seios das estrelas americanas
- e o Paulo Ribeiro chama o ascensor
Deveríamos incluir hoje a resposta do Samuel Nunes ao nosso leitor Boss (do blogue gay Renas e Veados). Por problemas de ordem técnica terá de esperar mais oito dias. Para a semana comentarei também, tentando não abjurar, o muito zurzido artigo sobre a Cruzada da Virgindade.
Muito nos honra e constrange as palavras amáveis que temos recebido dos nossos leitores católicos. O nosso obrigado sincero.
Para a semana os bichos estão de volta.
TOC

O elevador para a Arca de Noé

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004

O cura temeroso
Um estimado pastor baptista da capital, com idade para gostar dos Pink Floyd, lamentava-se por um jornal tão consagrado quanto o Semeador Baptista possuir uma coluna fixa sobre cinema. Ora, nessas escassas linhas da última página aproveito o pretexto da sétima arte para escrever sobre tudo menos filmes. Pretendo aqui homenagear os pacientes leitores que já o perceberam há muito e, consequentemente, tentar denegrir com diplomacia o raciocínio do sacerdote assustado.
Desde a infância que me familiarizei com os tótens perante os quais os índios do Lucky Luke se dobravam. Nesse gesto se simbolizava um temor em que a matéria ocupava um lugar fundamental. Não me passa pela cabeça comparar a fé cristã com tão curvilínea liturgia. Por isso seria capaz de ter na minha prateleira de recuerdos inúteis um Buda sorridente ou uma Virgem chorosa, não fosse eu púdico a tentar disfarçar a minha tenebrosa e ocasional vocação de turista. Seriam apenas bonecos, como tantos outros. Sem precisar de ser benzidos ou exorcizados ou, ainda mais gravemente, levados a sério.
O ancestral temor em relação ao cinema resulta de uma bizarra actualização puritana da caça às colunas dobradas dos peles-vermelhas. Que acaba paradoxalmente perante o mesmo ídolo - o da crença supersticiosa que o mal habita na imagem. Na coisa. Na substância. Na molécula. Creio firmemente que quanto mais os cristãos perdem tempo com telescópios das tele-vendas para encontrar o pecado nas manifestações externas do mundo o mais se afastam daquela tese simples mas certeira do evangelho. Que coloca a semente da maldade no próprio coração do homem.
Não me passa pela cabeça tentar persuadir aquele reverendo vigilante a converter-se à cinefilia. Ainda menos afirmar que todos devemos gastar muito tempo em salas de projecção. Cada um usa a frigideira que quiser para cozinhar as carnes sacrificadas aos ídolos.
Tiago de Oliveira Cavaco

[Sem título]
Nos últimos dez anos, em particular, as “elites evangélicas” do nosso país e de outros têm-se deliciado a discutir o chamado Pós-modernismo. Das vezes que me tenho pronunciado sobre o tema, tenho tentado fazê-lo com uma certa moderação e não embarcando facilmente nos discursos catastrofistas e apocalípticos que alguns elegeram como mote.
Na verdade, toda esta conversa de que estamos a entra numa nova fase da história, numa nova “Idade” é um demonstração clara de que, afinal, ainda vivemos na Modernidade! Por essa razão procuramos ter as coisas tão estruturadas e sistematizadas. Arrisco dizer que a Pós-modernidade não é mais do que o "canto de cisne" da Modernidade. Continuando na linguagem simbólica poderá também ser a atraente "borboleta" resultante da "lagarta" moderna incipiente, tendo passado pela indefinida "crisálida" moderna e exacerbadamente racionalista.
A Pós-modernidade, se tem existência própria, será mais um estilo de vida do que propriamente uma escola de pensamento com agenda e motivações próprias. É muito provavelmente o "fruto maduro" que cai da "árvore da modernidade".
O pendor fortemente técnico, pragmático e fundamentalmente utilitarista do final da época moderna não consegue ser abalado pela Pós-modernidade, o que pode explicar a surpreendente procura de experiências de cariz espiritual, com um carácter místico muito marcado, mas de natureza fundamentalmente subjectiva e pessoal, o que se integra nesta visão utilitarista do fim da modernidade.
Assim, esta espiritualidade não é fundacional e sustentada em valores estruturantes, externos ao próprio homem (transcendentes, sobrenaturais), mas é tão só a satisfação da secura espiritual a que o homem do fim da Modernidade ficou sujeito.
Isto claramente demonstra que se verifica um contínuo entre a Modernidade e a Pós-modernidade, o que confirma a saturação na proposição de pensamentos verdadeiramente inovadores nos tempos que estamos a viver.
Sem percebermos completamente porquê, a visão mecanicista e tão duramente objectiva do universo moderno é levada a um extremo racionalista que explode metamorfoseando-se num subjectivismo generalizado que, porém, continua a manter o princípio sagrado da Modernidade adulta: o homem como medida de si próprio.
No fundo, a Pós-modernidade pode estar a dar crédito à máxima de que "os extremos tocam-se" pois a sua rejeição visível dos princípios universalistas e fixos da ciência moderna, está a tornar-se, ela própria num princípio demasiado abrangente e que começa a ser atrofiante, pois recusa-se a admitir outras alternativas que não sejam subjectivas em si mesmas. Não será esta mais uma herança da Modernidade? Um certo tipo de "ditadura intelectual", agora vestida com a pele da tolerância e do subjectivo? A espiritualidade como forma de experimentar e viver um corpo de doutrinas e convicções, pode-se afinal ter transformado na razão de ser de uma existência que procura explicar tudo aquilo que somos no contexto exclusivo em que vivemos.
Timóteo Cavaco

[Sem Título]
Na minha Igreja falava-se de Pedro quando deixei a distracção guiar-me os olhos para dois jarrões lá à frente. Já estão ali há anos mas subitamente ganhei consciência de que lá continuavam a decorar o espaço entre o púlpito e o órgão. Nem sempre passaram despercebidos. Aliás, quem nos visita provavelmente permite que lhe escapem segundos de atenção para reparar nas duas peças decorativas que, de muito banais, têm uma pequena curiosidade concernente à disposição: O jarro mais largo está assente de uma forma normalíssima ao lado do mais estreito, que se encontra propositadamente caído, estendido no chão com a abertura voltada para as pessoas. Quando dizia que nem sempre passaram despercebidos remontava à altura em que eram novidade: aos reparos somavam-se tentativas de equilibrar em pé o jarrão caído. Sendo uma peça normalíssima, sem defeito aparente, é completamente possível apoia-la na base como mandam “as regras”, mas assim nunca permaneceu por mais do que uns escassos minutos. “Deixem estar isso deitado! É mesmo assim”, “Fica melhor um em pé e outro não! Fica mais giro”, “Larguem isso, é para ficar no chão. É decoração”. Eu fiz parte dos que apreciaram originalmente a disposição invulgar daquelas grandes peças. Faço parte hoje dos que se esqueceram das banais peripécias que os rodearam em tempos. Mantenho, ainda assim, uma ligação muito peculiar com tão desinteressantes objectos.*
*Ás vezes é difícil escapar à própria imaginação. Às vezes é difícil não vaguear pelas formas e pelas imagens:
Falava-se de Jonas e o jarrão no chão, com a boca virada para nós, era um peixe enorme que o tragava.
Um jarro em pé, inchado, imponente, ensimesmado. Um jarro deitado, esguio e humilde, reverente. Um fariseu e um publicano oravam.
Babel era erigida ao lado de um apocalíptico cálice derrubado.
Um pequeno Golias tombava perante o enorme David.
Jesus baixava-se e lavava os pés a um discípulo.
Não sei o que continha o jarro em pé. Do outro brotava água de um poço de Samaria. Falo de barro que falava comigo. O seu teatro abstracto veio-me à memória, mas isso a ninguém interessa. Falo de barro, escrevo sobre dois meros jarrões mas não me vou tentar com analogias. Quero desmarcar-nos de comparações. Não somos como aquelas peças; não podemos ficar no chão e alegar a decoração como um bom motivo para assim permanecermos. Não podemos igualmente ser um espelho subjectivo das escrituras, ser uma leitura apagada do evangelho para os outros decifrarem.
Talvez se chegue a uma sensação de perda de tempo no final deste texto. Afinal a quem pode interessar a ladainha dos jarrões? Contudo não me arrependo de a ter escrito, assumo mesmo que é tudo o que hoje tenho para oferecer. Por muito boa intenção que possua, nunca conseguirei ser tão bom teólogo como um particular par de jarros. Escuto-os num banco mais à frente de cada vez que uma Bíblia se abre. Chamem-lhes “sarças-ardentes” da loja dos 300. Não são imagens de escultura e apenas se tornam indispensáveis no compensar da minha falta de atenção. Renego metodologias e esquemas associativos para accionar a minha Fé, mas antes que todos se calem e falem as pedras, que me digam os jarrões para falar eu.

Pedro negava Jesus pela terceira vez. Quando o galo cantou eu estava distraído a olhar para um jarrão caído ao lado de outro em pé.
Samuel Úria

Quando dá jeito
Conheci há pouco tempo o Oleg. Jovem e robusto, tinha um olhar distante e uma expressão desconfortavelmente incaracterística. Depois de conhecer a sua história consegui perceber melhor o misto de revolta, sofrimento e resignação que do seu olhar parecia transparecer. O Oleg é Pastor Evangélico e Director de um Instituto Bíblico na Ucrânia mas veio para Portugal trabalhar como escravo para a máfia do seu país. É que o Oleg teve com o seu carro, um acidente em que danificou um jipe pertencente aos patrões da máfia local que, com toda a impunidade de que gozam condenaram o Oleg a ter de pagar o danos calculados por eles em 25 000 dólares americanos, uma fortuna num país em que um médico ganha cerca de 50 dólares por mês. Se o Oleg não pagar esta quantia, matam-lhe a família primeiro, e depois a ele. Faz cerca de um ano e meio que o Oleg deixou a sua família e a sua profissão para trabalhar cá, onde espera juntar dentro do prazo imposto o dinheiro que lhe resta.
Existem milhares de histórias destas. Ou melhor, existem milhares de pessoas com a vida nestes trapos. E quem rasga em trapos a vida destas pessoas são outras pessoas. Proxenetas, traficantes, violadores ou raptores são apenas pessoas, com a vida tão frágil como a nossa, mas que simplesmente destroem a nossa vida ou nos roubam a vida que queríamos viver. Todos estamos sujeitos a que nos aconteça algo assim. Todos estamos sujeitos a nos cruzarmos, ou pior, a termos de conviver com pessoas, que por vezes com artes perfeitamente legais podem fazer desmoronar quase tudo aquilo que valorizamos na nossa vida. Nós e eles, apenas pessoas.
Não consigo deixar de pensar em quantas vezes seria para algumas das vítimas tão simples resolver o seu problema. Quantas vezes não seria tão simples acabar com a vida de quem está a prejudicar a nossa. Vivemos porém, num país em que a maioria das pessoas não aprova esta via. Em Portugal, não aplicamos a pena de morte, nem colaboramos com países que a aplicam e é por isso que não repatriamos reclusos para países onde sabemos que vão ser executados. Tenta-se impedir o mal, mas protege-se a vida. De todos.
Quando se discute o direito de abortar, não consigo também deixar de reparar na semelhança destas situações. Ao partilhar as minhas reflexões sobre este assunto, tentarei fugir ao tom sensacionalista e à impetuosidade característica dos discursos radicalizantes, dos pregões e das manifestações. Tudo isso nos ensurdece e ajuda a escamotear o facto de estarmos perante um assunto delicado, eticamente denso, e de repercussões muito profundas em muitas vidas.
A meu ver, os mais fortes argumentos de entre os usados para defender a descriminalização da prática do aborto são: a pretensão de que o feto não é ainda um ser humano, (logo não se trata de homicídio), e o direito da mulher a decidir sobre o rumo da sua vida e do seu corpo.
Acerca do primeiro; parece-me lógico que tenhamos de traçar algures a linha que define o momento a partir do qual existe um ser humano. Parece-me no entanto, que não faz sentido traçar essa linha com base na existência órgãos, ou elementos de viabilidade biológica. A diferenciação de tecidos, a existência ou não de sistema nervoso central que permita sentir dor, a existência ou não de batimentos cardíacos, o desenvolvimento do cérebro ou dos sistemas vitais são frequentemente evocados para argumentar a inviabilidade biológica, a ausência de vida independente e alegar portanto que não se trata de um ser humano completo. Mas importa perguntar se existe alguma criança que aos doze meses, (por exemplo) tenha uma vida independente. Importa perguntar se uma criança à qual não se dá alimento, protecção e agasalho não é tão inviável como um feto sem batimentos cardíacos. A ausência de sistema nervoso central é tão letal como a ausência de cuidados neonatais. Em termos de dependência esta não acaba no nascimento, nem nada que se pareça. Só votamos aos dezoito anos!
Não me parece que faça portanto sentido afirmar, que não existe um ser humano antes de algum deste caracteres aparecer. Algumas das características do ser humano, muitas pessoas nunca chegam a ter, mas não é por isso que não são seres humanos. Desde o momento da fecundação que somos completos, seres humanos em potencial, biologicamente dependentes da mãe durante nove meses, educacionalmente dependentes durante muitos anos, e afectivamente dependentes a vida toda. A mórula, o embrião, o feto são de facto uma vida, e o aborto é de facto uma morte para essa vida.
O segundo argumento assenta no direito à liberdade da mulher. À liberdade de terminar com essa vida que lhe vai exigir cuidados, riscos, despesas e dor. Ter um filho exigiria uma dedicação, que não estamos dispostos, ou não nos sentimos preparados para ter. Seria demasiado prejudicial para a vida que planeávamos ter, e assim, optamos por acabar com essa vida antes que ela seja muito evidente. Terminamos uma vida que está escondida, para podermos continuar com a nossa. Para não nos sentirmos mal por termos dado o filho para adopção. Para nunca termos visto a cara dele, nem corrermos o risco de nos afeiçoarmos. Para ninguém poder dizer que não nos interessámos. Para ser mais fácil esquecer. Para podermos não usar contracepção, se não nos apetecer. Para ser mais fácil para toda a gente. Menos para aquela vida que acaba.
Todas as éticas humanas são utilitaristas e virá um referendo em que a maioria escolherá a uma ética. Pretende-se que a lei seja justa para as mulheres. Uma lei justa, defenderia os direitos laborais das grávidas e das mães, tentaria garantir assistência e condições de vida. Educaria, formaria e responsabilizaria a todos.
Mas a lei da conveniência, a que faz um by-pass ao valor da vida, só nos ensina a assobiar para o lado.
Parece que ajuda, por ser mais fácil, mas não é uma ajuda perversa?
Tiago Branco

O Seio da JJ e a Fuga de Deus
A reacção extremada e fundamentalista, à visão do seio de Janet Jackson (e que seio!), fizeram-me pensar na expressão de João Calvino: “coram Deo” (Institutas I:1.2). A frase completa é “cor et res coram Deo” e significa literalmente, “coração e objecto perante Deus”. Os pensadores mais Calvinistas têm usado esta ideia para referir que todos os objectos do mundo visível, assim como o sujeito dessa visão precisam de ser vistos em relação a Deus. Aqui não vou contra o pré-suposicionalismo. Ou seja, toda a epistemologia cristã afirma a priori que toda a acção humana deriva significado do acto criador inicial do Deus Eterno (L’Eternel, dizem os Franceses). Não há factos desprovidos de significado, nenhum intérprete é autónomo, e todo o conhecimento é ético-relacional (daí estarem condenados ao vazio existencial, os ateus). Nesta linha de pensamento, já Cristo dizia que debater certas questões com os incrédulos, era “atirar pérolas a porcos” (Mateus 7:6). Porquê? As razões são quatro:
1 – Para o cristão a realidade divide-se entre o Deus independente e o universo criado, metafisicamente distinto d’Ele, mas ao mesmo tempo eticamente responsável para com Deus. Se os factos do universo são reais é porque Deus os fez assim, se são racionais é porque Deus os interpretou primeiro. Assim, a ligação directa para o conhecimento vem pela revelação. E o método para atingir esse conhecimento consiste em “ser um sonhador dos sonhos de Deus e pensar os pensamentos de Deus, de acordo com Deus” (Van Til, A Christian Theory of Knowledge).
2 – logicamente fica também negado todo e qualquer conhecimento pela racionalidade abstracta. Dentro do pensamento cristão o ser humano coloca-se holisticamente diante de Deus. Todo ele! Sem tirar nem por: corpo e alma; mente, vontade e emoção, a que a Bíblia chama de coração (na verdade, no que toca a Deus, o coração tem apenas a suas próprias razões!). E todas as acções do homem, interdependentes deste triângulo relacional (mente + vontade + emoção), serão sempre coram Deo.
3 – Se tudo deriva significado de Deus, então não existem factos neutros. O sabor duma maçã e a soma 2+2 = 4, têm cores éticas. O observador cristão analisa cada facto e cada homem, pelo prisma das 3 matizes da peregrinação cristã: a criação perfeita, saída das mãos de Deus; a rebelião do Homem; e a redenção operada por Cristo. Aqui, alguém argumentará, que a redenção completa ainda não chegou. É verdade. “Toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora” (Romanos 8:22). Todavia, o cristão já tem as bênçãos do novo relacionamento com o criador-referencial-ético-relacional, e goza das “primícias” (Romanos (8:23) ao aplicar a redenção à sua epistemologia.
4 – O cristão está numa posição oposta àqueles que se recusam a ver os factos, e a interpretá-los num contexto coram Deo. O cristão está num patamar diferente do não-cristão (ver Rom. 1:21; 1 Cor. 1:21; 3:19; Calvino, Institutas II:3.1). As duas excepções são categóricas, porque por um lado, a supressão do conhecimento de Deus trai a existência prévia desse conhecimento, e por outro lado, a tentativa é frustrada, porque não chega a erradicar o conhecimento de Deus. A dupla terrível de excepções aparece em Romanos 1:19-25, e resume-se à criação e ao sensus deitatis, sentido da divindade. Calvino chega a dizer que mesmo o pecador não consegue “obliterar da sua mente” o sensus deitatis (Institutas, I:3.1).

Conclusão: o cristão que quiser comunicar eficazmente, deve estabelecer com o descrente que a supressão do conhecimento de Deus é um dilema ético, e não apenas intelectual ou do âmbito do sintoísmo (argumentação do tipo: “eu sinto que Deus existe”; “Cristo é verdade porque me dá paz e eu sinto isso”). O cristão terá de demonstrar que o pensamento do não-cristão, é uma “fuga de Deus”. E, assim poderá afirmar o seguinte:
a) toda a epistemologia construída a partir duma “fuga de Deus” leva ao abismo existencial.
b) tal atitude é categorizada como pecado. O Evangelho manifesta Cristo, precisamente como o redentor dessa dimensão acéfala do homem. A escolha de Aldous Huxley que diante do significado da vida, preferiu a ausência de significado, “pois não queria prestar contas diante de Deus”, é perfeito suicídio espiritual.
Assim, os fundamentalistas americanos, quando se deparassem com um seio desnudado, fariam bem em pensar no coram Deo de Calvino. Pelo menos não levariam a coisa tão “a peito”!

Textos de apoio: Institutas de João Calvino; VanTil, A Christian Theory of Knowledge; C.S.Lewis, They Asked for a Paper.
Samuel Nunes

Sexta-feira, Janeiro 30, 2004

Do editor
Chega o quarto número d'Os Animais Evangélicos. Nesta edição:
- o Timóteo Cavaco começa no cão para acabar a falar na revolução
- eu abeiro-me da escolha do automóvel
- o Pedro Leal atira-se à Fátima
- o Samuel Nunes manda entrar no jogo o Einstein
- o Samuel Úria fala nas páginas brancas da Bíblia
- o Tiago Branco faz a apologia do consenso
- o João Leal mete o dedo na dor
- e o Paulo Ribeiro restaura a Primeira Mulher
Temos tido algumas reacções aos nossos textos. A partir da próxima semana vamos começar a publicar o "Correio Animal do Leitor".
TOC


"Eva Restaurada"

A dor do homem
"A dor é o megafone de Deus", C.S. Lewis

Transtornado, o homem esbraceja, gritando "Onde está Deus, Onde está Deus?", em frente ao caixão de Feher
Puxando do cigarro, o colega da escola diz-me "Se Deus existe porque é que há guerras, fome e crianças que são violadas?"
No café, o homem gordo com um copo de tinto na mão, diz "Não acredito em Deus. Eu estive no Seminário quando era puto e os padres são os piores."
A noção religiosa daqueles que esperam unicamente de Deus o milagre, a alteração às regras naturais do jogo da vida, é infeliz. A única coisa certa na vida, costuma-se dizer, é a morte. Tanto se reclama com Deus por um rapaz de 24 anos morrer, como também pelo nascimento de Hitler ou por não "levar" o doente terminal em sofrimento. Deus move-se no meio da vida.
O que dói acontece por nossa culpa ou por culpa de outrem. Imputar a Deus as desgraças da convivência humana, como guerras, fomes, tragédias ou as crianças que são violentadas, é, mais uma vez, uma noção religiosa infeliz. O livre arbítrio, a vontade, faz parte, como a morte, das regras naturais da vida. As guerras nascem da cobiça; as fomes da sobrepopulação e da falta de recursos materiais das sociedades; a terra treme, as cheias acontecem e os vulcões explodem, tal como os homens decidem viver aqui ou ali; a criança é violentada por alguém que o decidiu fazer, num acto de simples vontade humana.
Os que optam pelo deus representado por sacerdotes têm também uma religião infeliz. Responsabilizar um clero, delegar numa equipa de profissionais, passar essa espécie de procuração espiritual a alguém, não está contido nas palavras de Jesus. De certo modo, estas pessoas compram o agênciamento das possibilidades da sua vida espiritual à Igreja Católica, ou a outra qualquer, na expectativa de ver a sua responsabilidade perante Deus mais leve. E, quando um homem falha, seja padre ou pastor evangélico, então o produto que se comprou está estragado e deita-se fora, como um qualquer electrodoméstico avariado.
Jesus veio confirmar-nos a vida que para muitos está esquecida. A grande ferida do Homem é o medo da própria vida. Ao pôr-nos a mão no ombro numa atitude de conforto, ao aceitar o nosso choro e gemidos como naturais, ao disponibilizar-se para caminhar connosco dia-a-dia , Deus, na figura de Jesus, está-nos a dizer
- Calma! É natural que te sintas mal, com uma dor imensa e sem perceberes o que está a acontecer.
e, ao dizer-nos isto, Ele diz também que tudo isso é natural e faz parte da vida. As lágrimas e o riso, a dor e o prazer, surgem porque essa é a condição de se ter um coração que bate. Deus dá-nos, no entanto, esta prenda fenomenal, que é ir-nos soprando esperança, amor e soluções, ao coração. Diz-nos, através da fé, onde virar, parar ou mesmo voltar atrás. E tudo, mas mesmo tudo, contribui para que O possamos viver cada vez mais.
Esta é a loucura do cristianismo perante o Homem. E é pena.
João Leal

[Sem título]
Cada vez acredito menos em revoluções. Reconheço que uma afirmação deste teor pode ser considerada de um reaccionarismo primário, o que efectivamente está longe de reproduzir com justeza o meu pensamento relativamente a esta matéria. A verdade é que ao passar ao de leve, é certo, pelas grandes revoluções da humanidade não consigo deixar de me interrogar sobre as mais profundas motivações que as antecederam e as consequências práticas da sua concretização. Fica-me a pergunta, sem uma resposta clara, admito, se melhor não teria sido o progresso e a transformação, ao invés da ruptura e do corte.
Mais do que colocar dois paradigmas em confronto – o revolucionário e o reformista – esta minha dúvida começa por advir da observação da natureza e, depois, dos próprios comportamentos humanos e sociais. A dúvida, com o seu quê de metódico, transforma-se em múltiplas outras questões, enroladas e amalgamadas, de forma pouco metódica, reconheço.
Comecemos por olhar para a natureza, falo agora dos seres vivos, desde os menos complexos aos mais complexos. Falo agora da existência irracional ou inconsciente; toda aquela imensa fatia da criação para quem a História não passará certamente de uma inevitabilidade, a qual nem sequer observável lhes é, por critérios de sistematização. Dado que o cão foi provavelmente o animal que mais se socializou, sob o ponto de vista da sua relação com o Homem, poderíamos dizer que toda a natureza tem “vida de cão”. Cumprir, afinal, um propósito que deve estar nos genes de cada um. Mas é aqui que me vêm à mente as palavras de Jesus: “Olhem para as aves do céu que não semeiam, nem colhem, nem amontoam grão nos celeiros. […] Reparem como crescem os lírios do campo! E eles não trabalham nem fiam!” Com maior ou menor violência a natureza lá vai cumprindo o seu propósito e mostrando-nos que a vida também é possível sem grande imaginação e afã. Ou será isto simplesmente dependência de Deus? Pura lã de ovelhas que não encolhe, vacas que dão mais leite, frangos que crescem mais depressa, flores mais bonitas e milho que alimenta mais são feitos certamente notáveis. É a natureza a intervir na natureza, para o benefício comum, na maior parte dos casos. Não me apetece agora falar nas inúmeras vezes que a natureza inflige pesados danos à natureza, a chega mesmo a destruir. Mas, a questão é saber se ainda conseguimos ver a mão de Deus na natureza, ou se isso não passa de uma boa explicação para o que não conseguimos explicar, à boa maneira da teologia newtoniana!
E que dizer do ser humano, o ente mais complexo da criação? A verdade é que se torna numa regra quase universal: quanto mais violentos são os meios pelos quais um regime se impõe, mais rápida ou mais dramaticamente esse regime se tornará redundante. Não falo apenas da política, mas de todos os regimes de vivência social. Ignorar a história, o passado comum e a experiência mesmo atemporal de qualquer grupo social é ignorar a natureza duma matriz comum que nos une e que reflecte algo de inefável que, por definição, não podemos explicar.
Esta inevitabilidade, que para alguns poderá parecer demasiado kantiana ou até mesmo naïf, não tem que levar necessariamente à inacção. No entanto, também tenho certamente o direito de me interrogar sobre onde estão e o que andam a fazer os grandes revolucionários deste nosso mundo. Parece que não os vejo! Será que também eles sucumbiram à natureza mais intrínseca das coisas?
Timóteo Cavaco

Os dois automóveis
No meu agregado familiar existem duas viaturas. Uma tem um peixinho colado atrás e outra não. Quando conduzo a primeira a minha prestação automobilística tem o mesmo grau de civismo de quando conduzo a segunda. O autocolante decora a traseira do carro, não transforma a ética do condutor.
A transmissão do evangelho usa sinais. O Messias fazia milagres. Os sinais não são o evangelho. Os milagres não eram o Messias.
Quando os evangélicos se preocupam com o seu lugar na sociedade concentram-se nos evangelizadores e não no evangelho. Na fé cristã o papel do agente é relevante mas não essencial. Entre outros exemplos possíveis, a Bíblia fala de homens, ventanias, nuvens de fumo, gotas de orvalho e burras enquanto meios de comunicar a salvação. Podemos gastar o tempo que quisermos a salientar as virtudes dos mecanismos. Mas o que interessa mesmo é o fim: a aliança que Deus quer estabelecer com o pecador.
Devemos poupar a nossa ansiedade sobre os pormenos técnicos do lugar dos evangélicos na sociedade. As pessoas bem educadas sabem que não é bonito passarem a vida a falar de si próprias. Falemos do que interessa. Deus nos ouça e os homens ainda mais.
Tiago de Oliveira Cavaco

[Sem título]
Durante três anos o Paresh foi meu colega. Nascera em Moçambique, descendente de indianos, e viera para Portugal, ainda adolescente, quando os pais decidiram arriscar por cá uma vida melhor. Era hindu. Mas sobre a sua religião raramente falávamos. Quando tal acontecia, o pretexto vinha, quase sempre, das festas religiosas que o obrigavam a faltar às aulas.
No entanto, uma tarde a conversa foi mais longe. O Papa estivera em Fátima havia poucos dias. E, falando do assunto, o Paresh informou-me que também fora, com a família, em peregrinação ao Santuário da Cova da Iria. Fiquei surpreendido. Mostrei o meu espanto, e expliquei-lhe. Um hindu a participar numa celebração católica? Didáctico e paciente, ele desmontou a aparente contradição. Se o Hinduísmo é politeísta, abrigando milhões e milhões de deuses, que habitam inúmeros lugares e seres; se a Índia está lá tão longe, com os seus santuários e os seus rios sagrados; então porque não aproveitar este lugar “espiritual” aqui mais perto? O que importa, dizia o Paresh, é exercitar a espiritualidade, e assim estar de bem consigo e com o Universo.
A coerência destas palavras fizeram-me aceitar a resposta. Ele acreditava, e agia em conformidade.
Também, quanto a Fátima, parecia perfeito o encaixe no enredo. Qual a diferença entre uma vela acesa à santa ou a um deus com seis braços?
Restava eu.
Naquela história, que decorrera pacífica e tolerante, ofereciam-me, agora, um papel agradável. Para rematar o final feliz, esperavam o aceno concordante e a frase bonita acerca da fraternidade humana. Contudo, surgia de novo a coerência. A minha, desta vez,
O que significavam, para mim, as palavras de Cristo: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”?
Apesar de quase a medo, e usando vários apartes justificativos, optei pela fidelidade ao Filho de Deus. E constatei, talvez pela primeira vez, que o papel de “mau da fita” me assentava muitíssimo bem.
Pedro Leal

Féher e Einstein
Na mesma noite, em que as televisões passam até “à exaustão” (expressão do Miguel Vale de Almeida) as várias perspectivas da “necro-pornografia” (expressão do BOSS), do Féher, a Voz do Deserto e o Guia dos Perplexos, chamam pelo Vizinho do Mar, e o Renas e Veados exulta pela volta do Sexo Homem. É a vibração imparável da vida, à flor da pele. Nada lhe resiste!
Isso leva-me a pensar numa das grandes provas da existência de Deus: a imaginação.
É um dever da mentalidade do crente, a imaginação. Não falo apenas do trabalho mental de analisar e arrumar ideias. Falo de se imaginar o que não está lá, o que não vemos e queremos descrever, o que não sentimos mas queremos partilhar, o que já foi dito mas que queremos repetir de forma inovadora e criativa. A imaginação (mesmo ao nível sexual amigo BOSS!) é um dever do crente por 2 razões.
1 - A primeira, tem a ver com a máxima cristã de que “tudo o que desejamos que os outros nos façam devemos fazer por eles” (Mateus 7:12). É urgente imaginarmo-nos nas sandálias dos outros, dos que sofrem, dos que são censurados, dos que são marginalizados, dos rotulados pelos politicamente correctos ... O amor compassivo depende muito da imaginação do amante.
2 - A segunda razão, prende-se com o pecado. Sim, é pecado falar, cantar, escrever, pintar, compor ou amar de forma monótona. Deus é fascinante! Ele é escaldante na sua criatividade (um deus que nasce bébé, no meio de gado, depois de passar 9 meses dependente duma placenta humana, é no mínimo ... excêntrico!). E olhar para Deus de forma analítica, empírica e tísica, é um erro. O mais próximo que chegamos a estar da criação ex-nihilo de Deus é pela imaginação. É pelo poema que nunca existiu e que iremos escrever. É pela metáfora que iremos usar. É pelo pensamento que iremos ter. É pela música que iremos compor. “Cantai ao Senhor um cântico novo, toda a terra” diz o Salmo 96:1).
Entretanto leio uma entrevista de João Magueijo, o grande cientista Português que está a revolucionar o mundo da física. Magueijo propõe uma teoria para solucionar alguns problemas com a explicação do Big Bang. Diz ele que basta a luz viajar a uma velocidade superior, e não ter o limite de velocidade (ai se a Bragada de Trânsito ouve!), imposto por Einstein, de 300.000 kms p/ segundo, no vácuo. Até aqui estou com ele. Haja revoluções, haja avanço científico! E fico-me. Porque Magueijo acrescenta que é ateu, mas não por razões científicas (ouviram ó rapaziada do Diário de um Ateu!). Diz ele que “não se deve relacionar Deus com ciência”. E eu vou pensando nisto enquanto recordo os médicos na televisão, a dizerem que não há “razões científicas” para a morte do Féher ... e penso noutra prova para a existência de Deus: a observação. A mente percebe. Apreende. Pondera. Analisa. Reflecte. Observa.
Foi Charles Misner, um cientista astro-físico que escreveu o seguinte acerca de Einstein: “vejo o plano por detrás do universo, como uma questão religiosa. Ou seja, deve haver um respeito enorme por tudo isto. Creio que foi por isso que Einstein não tinha tempo para a religião instituída. Ele ouvia o que os pregadores diziam acerca de Deus e achava que eles blasfemavam. É que ele tinha visto muita mais majestade do que eles conseguiam descrever, e na verdade o que eles diziam não tinha nada a ver com a realidade”. Deixando a questão pertinente sobre a negligência dos pregadores, falemos dos factos. A luz viaja à velocidade espacial de 8 triliões de kms p/ ano. A galáxia de que fazemos parte tem um diâmetro de 100.000 anos-luz (que é uma medida de espaço e não de tempo). É apenas uma de milhões de galáxias semelhantes, e observáveis com os melhores telescópios disponíveis. Na nossa galáxia há cerca de 100 biliões de estrelas. O sol é uma delas, modesta por sinal, e arde a 6.000 graus Cº.
A mente observa, e vê o que está mesmo lá. Ou melhor ... algumas mentes observam. Outras abafam as evidências!
“A quem me comparareis, para que eu lhe seja igual, diz o Senhor? Elevem os vosso olhos para o alto e vejam: quem criou as estrelas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais chama pelo seu nome; por ser Ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar” Isaías 40: 25-26.
A imaginação e a observação, como habilidades do meu cérebro, só me deixam duas saídas: ou sou radicalmente Teo-cêntrico, ou enterro a cabeça (com cérebro e tudo) na areia.
Samuel Nunes

[Sem titulo]
É triste quando carregamos o Velho Testamento como se fosse um peso morto nas nossas Bíblias. Aquelas páginas brancas que muitas vezes dividem esse Antigo do Novo não terão sido inspiradas divinamente. Mais do que uma simbólica cisão cronológica, mais do que manifestação da novidade de Jesus Cristo, mais do que o novo pacto, seremos quase todos réus por olharmos para essas alvas folhas como o branquear de uma consciência divina cruel. É esse o termo que passa furtivamente nas nossas cabeças e que tentamos ignorar: “cruel”. Assim é o Deus do Velho Testamento; o do Novo terá sido “amaciado” pelo Filho amoroso morto na Terra.
O Deus de Abraão, Isaac e Jacob não é o Deus de Jesus, Pedro e Paulo. O Deus do Deuteronómio não é o da Graça. Esse primeiro é cruel, é injusto e nós seremos todos réus por cada vez que não esclarecermos a perturbante ideia que nos passa pela cabeça, por mais breve que seja, por mais perdida que a façamos nas folhas brancas.
Espero que os mais desatentos não se percam nas minhas palavras. Aliás, é contra o destrinçador pensamento prenunciado que agora escrevo. Se o faço assim é porque me aponto o dedo, mas também o ponho numa ferida que não é minha, é de muitos mais. Protestantes, católicos e ateus se espantam com a “ferocidade” do Deus antes de Cristo. Uns censuram gritos de guerra bíblicos, outros dogmatizam parcelas para relativizar a verdade do que sobra. Alguns usam este argumento como arma de arremesso contra o gnosticismo. Ainda muitos excomungam-no com “relevável” anti-semitismo.
A leitura da Bíblia à luz do Espírito Santo deveria ser o conforto necessário a estes nossos achaques, mas confrontar o Espírito com os indicados protestantes, católicos e ateus (muitos grupos mais se poderiam referir), seria de uma confusão babélica. Não deixa de ser o melhor argumento que tenho e aquele que me convenceu, logo também seriam muitas as frases para contornar explicativamente o meu “esclarecimento do esclarecimento espiritual”. Neste espaço as palavras querem-se curtas, mas eu hoje prefiro que sejam duras:
Nada somos em comparação com Deus. Seremos ainda menos, mais mesquinhos e desprezíveis, se tentarmos moldar Deus a partir do nosso entendimento, a partir das nossas opiniões. Reduzi-Lo a conceitos humanos só nos deveria ser permitido na necessidade de exprimir metaforicamente louvor e adoração. Como poderemos dizer que Deus é cruel se Ele está acima do paradigma da crueldade, está acima de qualquer palavra que nos permitiu ser inventada? Estou a pensar que merecemos ser fulminados se aplicarmos ao Velho Testamento a mesma repulsa com que olhamos para as ensanguentadas notícias do Telejornal à hora do jantar. Mais ainda, como poderemos olhar para Deus e achá-Lo injusto sem estarmos a cair na imbecilidade de considerar que o nosso conceito de Justiça é mais importante que as escolhas e acções divinas. Se somos realmente crentes em Deus, então antes de tudo temos que estar preparados para considerar o nosso Senhor de absoluta, inalterável e inquestionável perfeição, estando acima de todo o conhecimento, todos os valores, todos os nossos minúsculos conceitos (e preconceitos). Talvez assim consigamos ler as Escrituras questionando-nos a nós e não a Deus. Retiro o último “talvez”. Falo com certeza.
Já que referi as investidas ateístas, deveria direccionar parte do meu discurso para um entendimento que lhes fosse acessível , mas aqui tenho que invocar o que já escrevi sobre os homens naturais e espirituais (primeiro número dos animais evangélicos) falados por Paulo na primeira carta aos Coríntios. Apesar de previsível, é quase exasperante que acusem o nosso gnosticismo de falta de inteligência sendo nós a única parte que entende os argumentos da outra.
Refugiava-me na falta de espaço para a brevidade da minha intervenção explanadora, só que não resisto a um pequeno exemplo onde, asseguro já, não estou a querer politizar o assunto. Apenas me suscita algum desapego serem as pessoas que criticam a beligerância intervencionista do Deus “ocidental”, as mesmas que desculpam os regimes fundamentalistas. Alegam que esses povos têm uma cultura e uma religião que não se coaduna com valores como a Liberdade e a Justiça; é lá com eles terem um Deus mau. Aqui no ocidente gostamos é todos do bom e pacífico Jesus. Será que se esqueceram que Ele é filho do Senhor do Antigo Testamento?
Samuel Úria

A Apologia do Consenso
As conclusões provisórias ou definitivas, as opiniões formadas, os pareceres, as avaliações, os remates finais de uma conversa são ouro sobre azul, pérolas preciosas, raios de sol, gotas de água de que nós precisamos como do pão para a boca.
Perdoem-me o desabafo, mas vivemos tempos em que raramente se tem o privilégio ou o prazer de se assistir ao fim de uma discussão da qual de facto os participantes saiam mais esclarecidos do que entraram, seja lá acerca do que for. Parece que está na moda acabar as conversas com a constatação de que o assunto tratado é realmente complicado. É quase sempre esta a conclusão "politicamente correcta" e como tal, a única permitida.
Não sou de facto um "conclusionista” que pensa que uma conversa em que não houve uma palavra final foi necessariamente incompleta ou inútil. Compreendo quão prejudicial pode ser e tem sido o facto de muitas vezes se sentir a necessidade de rematar sempre qualquer conversa com "conclusões a martelo", falsas sensações de consenso muitas vezes falhas na sua validade e aplicação.
Contudo, tenho também sentido que como reacção a esta realidade e por outros factores que passarei a referir, temos muitas vezes vindo a cair no extremo oposto.
É espantosa a facilidade e a frequência com que numa discussão as pessoas se contentam em concordar que discordam, dando assim a discussão por encerrada. Quando um dos intervenientes pretende chegar a alguma conclusão conjunta e consensual, rapidamente se catalisa o final da conversa.
Neste ponto, é necessário salientar que muitos factores podem influenciar o decorrer de uma discussão ou de um debate. São determinantes factores como a capacidade de diálogo, o respeito pelas opiniões contrárias, uma atitude de procura sincera e uma mente aberta, regada com a indispensável boa educação. Estes requisitos comportamentais garantem meio sucesso de uma discussão. A outra metade é garantida pela combinação destes factores com a aceitação intelectual da validade do debate pois de nada serve a alguém ter todos estes predicados se desprezar seja por que motivo for a intenção do debate. Hoje, concentrar-me-ei apenas nos argumentos que levam as pessoas a assumir que não vale a pena tentar chegar a qualquer conclusão numa conversa, discussão ou debate.
Existem na minha opinião dois motivos principais (pela sua frequência) para as coisas tomarem este rumo. 0 primeiro tem a haver com o desânimo, ou se quiserem a falta de paciência de que todos sofremos sempre que estamos perante alguém que sentimos estar a léguas do nosso pensamento seja por princípios, conceitos ou vocabulário diferentes, ou por ignorância ( do nosso lado ou do outro). Neste caso faltam-nos as forças para a tarefa ciclópica que nos espera antes de termos bases comuns que nos permitam chegar a alguma espécie de consenso.
0 segundo motivo que catalisa o fim das conversas e discussões tem a haver com o facto de ser comum a ideia de que não devemos tentar chegar a uma conclusão porque isso não é sequer possível. Neste ponto, emerge rapidamente um misto de cepticismo e de argumentos pluralistas. Interessa perceber até que ponto esse cepticismo e esses argumentos merecem a nossa aposta.
A questão central é a seguinte: definindo o tipo de assuntos, será que duas pessoas que tentem ser razoáveis numa discussão têm a garantia de chegar a algum consenso?
Entendendo como consenso qualquer tipo de conclusão conjunta, seja definitiva ou provisória que resulte de uma confrontação construtiva de ideias e que represente de algum modo um avanço no esclarecimento da questão que se debate, começarei por tentar definir quais os tipos de assuntos passíveis de consenso, admitindo portanto que existem assuntos nos quais este não é possível.
Mesmo sem necessitar de assumir uma ética utilitarista, podemos constatar que geralmente, os assuntos nos quais o consenso não é possível, são também aqueles em que este não é necessário. Um bom exemplo é o facto de que dificilmente alguém me conseguirá convencer de que o amarelo não é a cor mais bonita que existe. (Não pretendo ignorar a discussão estética acerca do significado do belo, mas assumirei apenas para o propósito deste ensaio, o "bonito" como sendo o agradável, que nos fascina à vista). 0 amarelo é uma cor extremamente agradável à minha vista e sejam quais forem as causas, ninguém poderá negar este fascínio. Este é um assunto em que o consenso não será possível. Um adepto do azul, será igualmente difícil de demover pois independentemente do que lhe possamos dizer ou fazer, a cor azul continuará a fasciná-lo pela sua agradibilidade. No entanto, não existe sequer a necessidade de consenso nesta matéria.
0 elemento que marca a transição para a necessidade de um consenso é sempre a presença de uma opção. Optar significa escolher uma consequência. Sempre que fazemos esta escolha estamos a recorrer a um conjunto de princípios que temos e que usualmente regem as nossas opções. As consequências são avaliadas por apelo a um sistema de valores que todos nós possuímos e ao qual recorremos independentemente do grau de consciência que temos acerca de quais os valores ou princípios implícitos na nossa escolha. É aqui que reside a necessidade de um consenso sempre que em conjunto fazemos uma opção : temos de concordar na aceitação das consequências!
Vivemos numa época em que se dá (e correctamente) um grande valor aos direitos do homem dos quais o direito à liberdade e autodeterminação é um dos mais inalienáveis. Contudo, este facto (ele próprio resultado do apelo a um sistema de valores), muitas vezes nos leva a ter medo de estar a violar o direito de liberdade de uma pessoa ao afirmar que uma pessoa pode estar errada. Esta visão peca no entanto por não fazer a distinção entre o afirmar que a pessoa está errada e o forçar a pessoa a aceitar a nossa visão. Isto sim, seria violar a sua liberdade.
Como cristão, acredito que existe de facto a necessidade de afirmar e até proclamar a realidade correcta. Existe um bem! Existem absolutos de mal e de bem, de certo e errado, justo ou injusto. Pela fé, o certo é fazer as coisas como Deus planeou que elas fossem feitas e como tal, existe uma maneira certa de encarar qualquer assunto (por mais sério ou pessoal que ele seja) em que sejamos chamados a optar ( mesmo que uma opção certa possa assumir várias formas de resolução).
Não se trata de uma necessidade de julgar os outros. Não se trata também da necessidade do perfeccionista de catalogar tudo em categorias de certo ou errado, de completamente bom ou completamente mau. Aceito a realidade da incompletude dos estados.
À afirmação de que cada contexto tem a sua realidade, respondo com a convicção de que na sua maioria, as pretensas realidades múltiplas não passam de evoluções por isolamento, palavras que adquiriram novos sentidos, construções divergentes de conceitos que divergentes se acumularam. Tudo isto conduz à generalização abusiva de que a realidade é múltipla e de que a única saída para a preservação da vida é a tolerância. A única verdade central do universo é que não existem verdades centrais. Contudo, se passarmos tempo suficiente com uma pessoa que vem de um contexto diferente facilmente constatamos que através do exercício paciente do esclarecimento de conceitos e de estabelecimento de linguagem comum ambas as realidades se fundem na medida do nosso empenho nessa fusão. É o que aliás fazemos sempre que uma relação é importante para nós - tentamos encontrar consensos.
A falácia pluralista da ausência de absolutos nega-se a si mesma ao afirmar que o único absoluto que existe é o facto de não existirem absolutos. É proibido proibir!
Além de frágil na sua construção, o pluralismo é também antagónico à natureza da própria vida em sociedade. Parece-me impossível que alguém consiga viver o pluralismo na sua plenitude levando-o às suas últimas consequências. Senão vejamos: se eu assumo que cada pessoa tem a sua realidade e tem o direito viver em conformidade com ela, eu terei também de assumir que embora para mim seja errado roubar, eu não tenho o direito de exigir a mesma conduta a mais ninguém. Se eu for fazer um depósito num banco e depois de algum tempo, ao tentar levantá-lo o caixa me responder: "eu aceito que o senhor acredite que tem direito a receber o seu dinheiro, mas na nossa realidade, a partir do momento em que os depósitos são feitos, o dinheiro passa a ser nosso”, que poderei eu responder perante esta lição de economia relativista? Rapidamente constataremos que este relativismo é caótico, e contrário à existência de qualquer tipo de sociedade, pois estas constroem-se precisamente a partir de acordos. Se um casal de namorados optar por não chegar a consensos, rapidamente entra em ruptura, pois existem decisões em que as consequências serão para ambos.
Assim, assumindo uma realidade una e independente das nossas sempre incompletas apropriações dessa realidade, assumimos a existência de absolutos que (para mim, cristão) serão os absolutos estabelecidos por Deus. Embora o caminho até um consenso possa ser árduo, ele é também possível e portanto, desejável !
Para duas pessoas razoáveis, que assumem uma postura de diálogo construtivo na procura de entendimento comum, não existe razão para um cepticismo que tão frequentemente inviabiliza as construções. A questão não é se é possível chegar a um consenso, mas a distância que ainda tem de se percorrer até lá chegar e, obviamente, se vale a pena o esforço.
Na minha opinião, por mais pequeno que seja o consenso, é válido e por mais provisória que seja a construção, é preciosa!
Tiago Branco

Sexta-feira, Janeiro 23, 2004

Do editor
O terceiro número d'Os Animais Evangélicos oferece-lhe:
- uma auditoria à igreja de Corinto pelo Timóteo Cavaco
- o regresso do Samuel Nunes à Casa Pia
- o Pedro Leal a desejar que esta lei não aborte
- eu assustado ao saber que o amor espera, a inteligência é que nem sempre
- o Samuel Úria a não resistir ao pecado da nostalgia
- o Tiago Branco sugere a Balança PURK
- e a ilustração arrependida do Paulo Ribeiro
TOC


"Do compartimento do arrependimento já se vê o paraíso"
Acho possível que Deus não exista.
Acho possível que o Cristianismo seja um engano.
Acho possível que não exista nada para além da matéria.
Não tenho a certeza da salvação.
Acho possível que estejam erradas todas as coisas em que eu acredito.
Todos os anos me espanto com a minha ignorância de anos anteriores. Estou a crescer e espero não parar. Certezas absolutas, acho que não tenho nenhuma e, para dizer a verdade, desconfio um bocado de quem afirma tê-las. Penso que não é suposto nem é preciso termos certezas, antes convicções, antes fé. Acho que é isso que Deus valoriza em nós e o que nos pede. A fé, tal como o amor, é imerecida mas nunca injustificada. Sobre o amor pensaremos no futuro, mas hoje importa-nos a firme esperança nas coisas que se não vêm.
Ora todos temos crenças que nos estruturam. Estruturam também as nossas vidas e as nossas opções. Deste conjunto de crenças ou convicções, poucas foram verdadeiramente testadas, remodeladas e reconstruídas por tentativa e erro em procura da verdade. Mesmo em relação ao corpo fundamental de princípios que deveriam determinar o rumo das nossas vidas, a certa altura a verdade deixa de ser tão importante e é vencida pela legítima e pragmática necessidade de viver entretanto. Não podemos congelar a nossa existência até estarmos na posse de respostas definitivas e completas. Ao problema epistemológico do conhecimento e à consciência da nossa inegável parcialidade respondemos com apostas. Utilizamos aquilo a que gosto de chamar a balança PURK. Perante as escolhas, e sem dados que confiram certezas absolutas, pegamos na balança que sempre trazemos no bolso e colocamos nos seus pratos as razões, os argumentos e as contradições. Da pesagem, (que sempre varia em rigor, critério e cuidado de pessoa para pessoa), nasce a convicção do melhor caminho. E vivemos.
Acontece que é fácil esquecer que apenas pesámos os argumentos mais importantes, os que estavam mais à vista e mais perto do coração. E que aquela pesagem, feita com mais critério poderia ficar mais equilibrada, e que amanhã podemos dar de caras com um peso enorme que desconsiderámos, e ter de pesar outra vez. Quanto mais complexa a questão, maiores as probabilidades de assim acontecer. Não obstante, temos respostas, opiniões e convicções. Estamos apenas conscientes de que estas não são finais, nem absolutas. Estamos conscientes de que, mesmo quando o desequilíbrio foi notório ou mesmo esmagador e quando a aposta foi mais convicta, nunca é possível aceder a todos os dados imparcialmente. É uma aposta, é o exercício da nossa liberdade.
Cremos num Deus que não vemos sensorialmente, mas que percebemos, sentimos e vivemos. Cremos nas suas promessas, PURK se Ele é verdadeiro, as suas promessas são também verdadeiras. Com garantias não haveria fé, mas sim uma Lei, uma constatação. E aquilo que Jesus mais valorizou no Seu tempo connosco foi a fé, como a das crianças. Sem garantias, mas sustentada.
Se tentarmos ser intelectualmente honestos a nossa vida encarregar-se-á de confirmar ou negar as nossas apostas. E por isso compreendo as afirmações de quem, por viver tão intensa e apaixonadamente uma relação com Deus, já não consegue vislumbrar nenhuma margem de erro. Mas penso que ela existe à mesma.
Assim, sempre tentarei perceber assuntos complicados, e farei tentativas de repostas. Partilharei as minhas reflexões sobre assuntos complexos, sabendo que no próximo ano me poderei espantar com a minha ignorância presente.
Partilho com alegria afirmações prováveis e convicções provisórias.
Tiago Branco

Tenho a impressão de que o apóstolo Paulo dos tempos bíblicos não teria dificuldade em adaptar-se aos dias em que vivemos. A compulsão da sua origem judaica, com as suas cultura helénica e cidadania romana seria motivo suficiente para lhe conferir uma abrangência suficientemente pós-moderna. Por outro lado, a sua erudição e capacidade de trabalho metódica e organizada torná-lo-ia suficientemente aceite pela nossa academia, ainda profundamente marcada e até dominada pelo racionalismo (mesmo positivismo) moderno.

Imagino o apóstolo a fazer uma “auditoria” à comunidade eclesiástica de Corinto e a apontar-lhe uma série de “não conformidades” que poderiam fazer perigar a sua “certificação”. Listemos algumas delas:

o A informação, com origem na família de Cloe, de profundas dissensões no seio da comunidade que potencialmente conduziriam a situações de vias de facto; numa comunidade instituída sobrenaturalmente não é suposto que o elemento de união – Cristo – seja afinal um entre outros possíveis líderes de opinião.
o A sustentação da doutrina na sabedoria dos homens e não na sabedoria de Deus, a qual foi revelada.
o As muitas riquezas e a ambição desmedida por bens materiais provocam ensoberbecimento e vanglória.
o Relatos credíveis de um caso específico de adultério, com fortes possibilidades do mesmo ser incestuoso e sem a mínima preocupação com os efeitos danosos de tal acto; de uma forma geral, a ética sexual reinante era de carácter bastante duvidoso e ruinoso para a família.
o Afastamento fraternal de tal ordem, que os membros de uma mesma comunidade já não tinham capacidade para resolver as suas próprias questões, entregando a sua solução ao poder e à sociedade civil.
o Práticas morais bastante situacionistas e conjunturais, pouco preocupadas com princípios e valores; algumas tinham consequências de grau diferente mas eram sempre potencialmente perigosas, especialmente para os mais fracos ou jovens na fé.
o Desrespeito pela autoridade e pelos direitos dos líderes ao ponto de colocar em causa a responsabilidade da comunidade em providenciar-lhes os recursos necessários à sua subsistência.
o A despreocupação em relação a certas ideologias antagónicas ao Cristianismo e mesmo a aproximação a práticas de benefício duvidoso para os membros da comunidade.
o A inexistência de uma estrutura e organização mínimas na comunidade, com participação igual de todos segundo as capacidades de cada um.

Esta lista, certamente reduzida, comporta apenas os aspectos que precisavam de correcção imediata. O surpreendente é que o apóstolo, no meio de tantas “não conformidades”, assustadoras e ameaçadoras, surge com um desconcertante hino ao amor, chegando a dizer que este é o mais importante. Recuso-me a tirar daqui conclusões já que isto colide com a minha visão estruturada de uma doutrina cristã toda lógica e sistematizada. Ajuda-me, meu Deus, a receber o toque do carácter sobrenatural do amor e a render-me às evidências da Tua Palavra!
Timóteo Cavaco

Quando rebentou todo este escândalo à volta da Casa Pia, o meu amigo Júlio teve uma saída popular: “eu, os homossexuais ainda entendo, agora os pedófilos ...!?” Claro que a falácia do Júlio é comum a muito boa gente, e responde-se com esta ideia simples: é essencial haver um padrão. Há princípios a respeitar. O liberal sexual que sacode de si a canga dos “padrões Bíblicos”, substituindo-a pela ideia de que sexo é auto-gratificação, não pode resistir a ninguém que queira ser mais liberal do que ele. Porque haverá sempre alguém mais “aberto”, mais “livre de preconceitos” e mais “honesto com os seus desejos íntimos”. Onde quer que se colocar o limite, alguém verá nisso uma barreira à sua liberdade de expressar a sua sexualidade. Veja-se o caso paradigmático do canibal alemão!
Naturalmente, que ultrapassados os “padrões Bíblicos”, até praticar sexo com cães acaba por ser natural. Pois alguém poderá argumentar que isso o satisfaz e que faz parte de “quem ele é”; e que agora é muito mais feliz por estar “sintonizado com o seu centro sexual”; e que a relação é de “consentimento mútuo”. (não há notícia de cães a ladrarem em protesto, nesta área da vida!)
E, aqui torna-se relevante chamar à arena Aristóteles que na sua Ética, faz distinção entre uma acção voluntária, e escolha deliberada (ou deliberação). A acção voluntária, diz Aristóteles, tem origem no agente activo da acção. Não é portanto, compulsiva. Todavia, as escolhas deliberadas, embora voluntárias, vão mais fundo: elas resultam duma deliberação à luz de conhecimento e princípios morais. Neste sentido, os animais são capazes de produzir acções voluntárias (os impulsos internos e o seu instinto), mas falta-lhes a capacidade de escolher moralmente. Da mesma forma, as crianças terão atitudes voluntárias mas não escolhas morais deliberadas. Certamente que terão algum conhecimento e terão noções de princípios morais, mas a sua apreensão não é completa. Daí que ter sexo com crianças será sempre um crime, porque mesmo quando consentem na pratica sexual, elas são incapazes de deliberar. Neste caso, pertence ao adulto maduro a escolha deliberada de não ter sexo com crianças, mesmo que elas consintam.
Obviamente que o emancipado sexual não acredita em padrões normativos quando se fala de sexo (posição racionalmente incoerente, pois não haver nenhum padrão normativo já é um padrão normativo em si mesmo!). Para ele o sexo é puro prazer. Nada mais! E aqui coloca-se a pergunta: se o sexo é apenas prazer, então por que não deixar que as crianças pratiquem sexo à vontade. Afinal elas também sabem o que dá e não dá prazer!
E, assim resvalamos para a escravidão sexual de menores.
Não admira! Sem premissas, resta a permissividade.

(textos de apoio: The Nicomachean Ethics of Aristotle – cap 3 “Of the will”
Touchstone – A Journal of Mere Christianity nº 15
“Pedophilia Chic” de Mary Eberstadt)
Samuel Nunes

Está de volta a discussão em torno do aborto. E tudo indica que, pelo menos a médio prazo, os cidadãos serão de novo chamados a pronunciar-se sobre o assunto.
No referendo de 1998, o Não à despenalização da interrupção voluntária da gravidez venceu por escassíssimos quarenta mil votos. Foi uma vitória inesperada, pois todas as sondagens indicavam o resultado contrário.
Escrevi na altura, e parece-me oportuno relembrá-lo agora, que, para os evangélicos, esse referendo trouxe duas lições importantes.
A primeira, foi a afirmação da responsabilidade individual de cada crente, perante Deus e, por consequência, perante a sociedade.
Mesmo em questões tão dilacerantes como o aborto, a consciência do cristão, libertada e renovada por Jesus Cristo, habilita-o a tomar uma decisão. Não necessariamente a mais fácil, nem a que provoque menos dor. Mas aquela que contem a resposta de Deus para o problema em causa. Ser “sal e luz do mundo” implica, precisamente, trazer aos que estão à nossa volta a perspectiva divina. Seja por palavras ou por actos. Abdicar desse privilégio-responsabilidade, ou delegá-lo noutra pessoa ou instituição, significa por em causa o poder de Deus e as promessas contidas no Evangelho.
A segunda lição, refere-se à capacidade de influência social, enquanto grupo.
O raciocínio é simples. Se a margem de vitória do Não rondou os quarenta mil votos, e o número de evangélicos em Portugal ultrapassava largamente, mesmo nas estatísticas mais pessimistas, os cem mil, sendo grande parte deles maiores de idade, então não é descabido pensar que os evangélicos fizeram pender decisivamente o prato da balança. Como é óbvio, nada nos garante que esta conclusão esteja certa. Mas esse facto não lhe retira pertinência. A comunidade evangélica tem capacidade para intervir socialmente. É certo que nem sempre com um potencial decisivo tão grande como no referendo de 1998. Mas, independente do impacto, existe o dever de, dentro do respeito devido às autoridades instituídas, e usando os mecanismos previstos na lei, procurar que a nossa sociedade se torne mais justa aos olhos de Deus.
Pedro Leal

Pelo que tenho escrito neste espaço acho-me terrivelmente nostálgico. Cada vez que me sento em frente do computador não tenho tempo sequer para me sentir com falta de inspiração, aparecem-me logo coisas do passado que apetecem dissecar. Antes de considerar se são um bom assunto ou não, já os dedos cairiam, saudosistas, no teclado.
Esta semana tentei usurpar qualquer traço da herança genética que me pudesse advir da mãe da minha mãe. Bastou-me recordar a melhor contadora de histórias que conheci para ter eu também que contar. Literalmente cresci com fábulas de La Fontaine na mão e com fábulas da minha avó nos ouvidos. Quase kafkiano, era dela o conto de um rapaz que tinha na testa, não se sabe como nem porquê, gravada a palavra “protestante” e por isso era troçado. A moral da narração chegava com o miúdo a orgulhar-se da esquisita inscrição e eu, pequeno e inocente, não desconfiava da simplicidade daquele final. Continuava a ser, mesmo assim, a mais estranha das histórias da minha avó, um bocado disparatada até para o neto de 5 anos.
Despreocupado por não ter nada na testa, provei também ter pouco na cabeça. Ignorei na infância um passado de perseguição religiosa e instaurei uma sobre mim. Era tão fácil ser-se aceite como “Protestante” nos anos 80, mas era-me tão difícil aceitá-lo. A verdade traduz-se na execrável equação que relaciona a facilidade com laxismo. Quando nos damos conta disso temos uma mínima ideia (infimamente mínima) dos remorsos de Pedro ao terceiro canto do galo.
Que hei-de pensar eu? A geração dos meus avós sofreu afrontas, ameaças, foi escorraçada e perseguida, mas falava do Evangelho como se não houvesse amanhã. Mesmo assim sentia-se culpada por não gozar da temeridade dos primeiros cristãos. Que hei-de pensar eu, de mim e da minha geração, perante “tão grande nuvem de testemunhas”?
Admito a minha preocupação com a abertura de que gozamos hoje. As facilidades e a liberdade de expressão do jovem evangélico estão a manifestar-se num assustador fenómeno: o do surgimento da nada cultural “cultura evangélica”. Quando imagino o orgulhoso rapaz com “Protestante” desenhado na testa, não penso no jovem evangélico que tem um peixinho tatuado nos ombros ou nas costas. Acredito que a Graça de Cristo nos basta, mas não me parece correcto o sistema da referida cultura evangélica: abstrai-se do mundo para se deleitar numa “relação cor-de-rosa” com Deus. Custa-me que o Senhor seja usado para uma pública satisfação da volúpia sentimentaloide. Custa-me que a intimidade com o Criador esteja a ser confundida com o uso litúrgico da linguagem íntima de xaroposa descrição dos sentimentos. Custa-me que se amaldiçoe a intelectualidade secular e privilegie uma confortável e imperturbável troca de demagogias.
Ser evangélico sinonimizou-se com ser amesquinhador. De perseguidos passamos a perseguidores. Contentamo-nos em apontar ou ignorar o cisco no olho do outro santificando a trave espetada no nosso. Não nos sentamos na roda dos escarnecedores mas com todo o gosto formamos uma de ignorantes. Não nos deixamos corromper pelo mundo, mas não nos corromperemos pelas nossas concupiscências religiosas?
Ao converterem-se, os meus avós deixaram de ir ao cinema por acharem-no imoral. - os jovens evangélicos alugam o “Advogado do Diabo” e o “Matrix” para discutirem a perigosidade das entrelinhas.
O meu avô, pela sua reverência, repreendia-me se fazia o mínimo ruído na igreja; reverente também cantava deliciado os velhos hinos acompanhados a órgão - os jovens evangélicos empreendem demandas para conseguir instrumentos ruidosos nos cultos e fazem dos ritmos das músicas questões teológicas.
A coisa mais absurda que alguma vez ouvi da minha avó, afinal não o era, e tratava-se da história de um menino com “Protestante” gravado na testa - em acampamentos de jovens evangélicos talvez se conclua que Paulo poderia ter discursado no Areópago mesmo só tendo lido teólogos brasileiros que escrevem para a juventude.
Sei que a Fé produz esperança e que não ignoro a projecção futura dessa realidade, mas como é que eu, na minha consciência religiosa, posso deixar de ser nostálgico?
Samuel Úria

Uma das cruzes dos evangélicos é a virgindade. Eu carreguei-a até ao casamento. Mas não me passa pela cabeça ser apóstolo desse evangelho. Os pastores, receosos da liberdade libidinosa dos seus adolescentes, têm mais medo que sabedoria. Vendem margarina como manteiga. Comportamento como mandamento.
O cristianismo não trata de uma nova moralidade. Estivesse ele nessa competição e dificilmente teria lugar no podium. As asceses e cambalhotas orientais, alimentadas exclusivamente a verduras, há muito que o ocuparam meritoriamente. Os novos procuradores-gerais da ética perdida não entendem que se fosse esse o objectivo da mensagem evangélica ainda estaríamos a esta hora a tossir shaloms na sinagoga.
Adivinham-se autocolantes e pulseiras a purificar as tímidas volúpias dos protestantes púberes. Os pecados são perdoados no marketing do celibato altissonante. Esta anti-erótica basílica de S. Pedro está garantida com semelhante venda de indulgências.
Tão doentiamente obcecado com o sexo está aquele que se escandaliza com a abstinência quanto o que se crê mais puro por nunca ter penetrado. Para o púlpito o que é do púlpito. A castidade não é matéria de religião. Quando muito, de bom senso.
Tiago de Oliveira Cavaco

Sexta-feira, Janeiro 16, 2004

Do editor
O número dois d'Os Animais Evangélicos oferece artigos de todos os redactores. Por isso chamo a atenção para a estreia do Timóteo Cavaco e do Tiago Branco.
- eu deliro à volta dos planos de revitalização da igreja moribunda
- o João Leal aponta para as angústias dominicais do profissional da religião
- o Pedro parte do Multibanco para a carta aos Romanos
- o Tiago Branco pega na herança de Pascal
- o Samuel Úria saca do martelo e avança em direcção às esculturas
- o Samuel Nunes pergunta se será Deus relevante no caso da Casa Pia
- o Timóteo Cavaco rende-se às Escrituras
- e o Paulo Ribeiro ousa ilustrar "O Coração do Messias"
Temos tido algumas reacções. Desde crentes deslumbrados a homossexuais ofendidos. Escrevam para o e-mail (está na coluna lateral). Assim que se justificar, publicaremos o Correio Animal do Leitor.
TOC

Confesso que, ao longo da vida, já escrevi e já falei sobre temas que não domino completamente. A terrível dificuldade em dizer “não” ou a pressão do argumento do tipo “se sabes tratar dum assunto sabes tratar de todos”, têm sido muitas vezes suficientes para cometer essa desonestidade intelectual. No entanto, se há coisa que não me imagino a fazer é entradas para um qualquer dicionário ou enciclopédia, manifestos acalorados ou mesmo cartas de intenções elaboradas e programáticas. Ou seja, prezo de mais a palavra e o pensamento, para o reduzir a um conjunto de afirmações vazias e, na maior parte das vezes, inconsequente.
O que pretendo é olhar para mim próprio como um mero cidadão, que vive e convive com outros cidadãos. Duvido cada vez mais da genialidade e começo a acreditar que o mundo à nossa volta é uma mera construção do marketing. Se JPP significa José Pacheco Pereira, João Pedro Pais, ou um qualquer Joaquim Paulo Patrício, depende muito de quem o lê: do seu mundo, das suas sensibilidades, mais do que tudo, da forma como o deseja interpretar. Certamente que nunca antes na história da humanidade andaram tantas palavras a circular pelo mundo. O que me interrogo é sobre o seu real valor e relevância. Já dizia o velho Sören que “não há falta de informação em terras cristãs; alguma coisa mais está a faltar e isto é que o homem não pode comunicar directamente com o seu semelhante”.
Para mim, não há livro mais genial que a Bíblia. Não estou a falar de estilos, de erudição ou de cientificidade. Disso podemos falar mais tarde! Estou apenas a falar da Palavra. Quando me abeiro da Bíblia fico com uma terrível sensação de humanidade, incapacidade, pequenez. Perante homens que foram agricultores, pastores, pescadores; outros foram sacerdotes, reis, mestres, doutores, é certo. Porém, perante a Palavra sentimo-nos esmagados e reduzidos. Tenho cada vez mais dificuldades em perceber exactamente o que está por trás daqueles que tudo sabem, que para tudo encontram uma explicação. Porém, também olho com um certo lamento para os que na Bíblia só encontram problemas, contradições e falhas. Por aí se diz que o que é trivial não é relevante. Talvez tenham razão!
Será que a Bíblia é um livro para o século XXI? Esta é a pergunta que incrédulos e crentes dos nossos dias colocam preocupadamente sem perceber a fragilidade e a relatividade da entidade tempo. Pensando ser contemporâneos e actualizados caem precisamente no erro de reduzir a Palavra a uma dimensão temporal. Sem compreender que a História nem sempre foi assim, nem sempre foi tão controlada e estruturada pelo tempo, como hoje o é. Não que a cronologia não seja importante, mas não é certamente determinante nem se sobrepõe ao facto histórico em si. Assim, a relevância da Bíblia não pode ser consignada exclusivamente ao teor da sua própria letra ou mesmo às interpretações mais imediatistas que lhe são dirigidas. Seria demasiado redutor.
Os demasiado longos anos de “leitura silenciosa das Escrituras”, desde o século XVIII, têm-nos tornado excessivamente cautelosos em relação aos verdadeiros objectivos de Deus ao entregar este inestimável património a toda a humanidade, que é a Bíblia. Torne Deus a Palavra grandiosa e penetrante em todas as suas dimensões e que sejam as nossa palavras cada vez mais insignificantes e irrelevantes, afinal meras leituras apócrifas das Escrituras.
Timóteo Cavaco

É um prazer para o crente ler com entendimento, pensar com acutilância, observar com discernimento, pesquisar com profundidade, avaliar em justiça, memorizar disciplinadamente, escrever com elegância, e sentir com paixão toda a beleza de Deus e do mundo criado por Ele.
Isto a propósito dum axioma simples: Deus não gosta de ser ignorado. Ora, falar de Deus e de ética cristã, apenas como o fundamento da nossa sociedade, é grosseria imperdoável. Os fundamentos não se vêem e quase sempre passam despercebidos. Mas Deus deseja ser parte integrante e visível do nosso dia-a-dia. Ele não quer ser um "ponto assente". Longe de ser periférico, Ele deseja ser central. Em tudo! Nos nossos sonhos, pensamentos, atitudes, gestos, estéticas, interpretações, ciências, padrões ...
Deus não gosta de habitar como um assentimento silencioso dentro de nós. Ele gosta de ser celebrado. O hino "para mostrar o Meu poder em ti, e para que o Meu Nome seja anunciado em toda a terra" (Êxodo 9:16), é repetido até à exaustão teológica em Êxodo 6:6-7; em 7:4-5; em 8:9-10; em 9:29; e em 14:3-4. E, Deus faz questão de que ninguém esqueça o Seu poder, daí ter instituído a Páscoa: "se acontecer que o teu filho no tempo futuro te pergunte: Que é isto (a Páscoa). Dir-lhe-às: O Senhor nos tirou com forte mão do Egipto" (Êxodo 13:14).
Ora, o estado de coisas chegou a um ponto, em que Deus não somente é ignorado mas muitas vezes desprezado e relegado para um canto espiritual onde alguns tacanhos resistentes teimam em dar-lhe o devido valor. Estamos anestesiados diante deste insulto à presença e ao poder de Deus. E, se a agressão contra Deus nos ofende, a omissão de Deus escapa-nos. E sentimos esta "ausência" (o homem moderno não tendo conseguido matar Deus, pô-lo fora da arena da vida) como um sentimento normal. Tal como é normal não pensar no ar que respiramos a cada segundo, ou na terra sólida que pisamos.
Penso ser urgente não tomar como garantido, pelo menos três ideias:
1 - o propósito divino por detrás de cada detalhe do universo. O mundo que habitamos tem um carácter planeado. Cada ser tem o seu espaço de acção e foi desenhado para ocupá-lo.
2 - a moral básica por detrás de cada gesto humano. Todos temos uma consciência que nos acusa quando defendemos um pedófilo, e nos elogia quando defendemos a vítima. Há uma distinção intrínseca entre o bem e o mal (é mau bater numa velhinha! Muito mau mesmo!).
3 - a sustentação sobrenatural por detrás da existência. O que permite que eu tenha fôlego? Porque é que a terra não salta da sua órbita? A imensidão dos porquês esmaga-nos. Só Deus (como Deus presente) responde de forma convincente.
Penso que ideias têm sido abafadas, e julgo serem relevantes para todas as esferas da sociedade. Até para a caso da Casa Pia!
Samuel Nunes

Antes de ser uma questão de estética foi uma questão de princípio. Fui educado quase como um iconoclasta bizantino - por isto não escondo a reviravolta no estômago de cada vez que passo pela banca dos quadros e pinturas na feira de Tondela.
O anatematizar certas representações religiosas acabou por fundamentar-me bem cedo convenientes pruridos pelo gritante mau-gosto. Obviamente excluo as “obras de Arte” do rol a que tecia imprecações; se o artista é bem sucedido , por muito que lhe encomendem “objectos de veneração” ele irá produzir “objectos de admiração”. Panteísmos à parte, a haver alguma Arte digna do nosso ajoelhar será apenas a feita em 7 dias pelo Artista Supremo. Quanto muito permito-me comover frente ao tecto da Capela Sistina do Miguel-Ângelo ou estarrecer perante a Guernica do Picasso. Já na feira de Tondela não há Arte e aí permito-me nausear com oxigenados Cristos, corações flamejantes e aureolas ao desbarato.
Agora, enquanto evangélico desde quase sempre (os irmãos calvinistas que perdoem o “quase”), guardei numa memória algo turva certa famosa gravura com a qual identifico diversos lares protestantes que conheci na infância. Via-a em normais quadros, em pequenos relevos emoldurados ou até mesmo incrustada em mealheiros duma campanha de oração: duas mãos unidas numa indiscutível atitude de reverente prece constituem a imagem que eu aprisionava num universo exclusivo de casas evangélicas. Foi preciso já ir tarde na adolescência para tais mãos saltarem para o meu livro escolar de História da Arte. Não houve qualquer tipo de decepção ao ver discutida numa sala do liceu a obra que subliminarmente me simbolizava uma realidade muito mais pessoal - apenas deixei-a cair numa quase frieza académica. Porém havia que valorizar as “Mão do Apóstolo” de Albrecht Dürer e era um gosto observar mais aprofundadamente o exemplar artista. Para meu desconhecimento, a professora liceal de História de Arte ficou, na altura, muito aquém no esclarecimento desse génio pos-renascentista (ou pré-maneirista, se preferirmos). Cingindo-se aos pormenores técnicos, espírito engenhoso, imaginação apurada e a suposta amizade com o nosso Damião de Góis, não era pelo discurso dela que estaria a chegar o meu deslumbramento:
Há um par de anos, exactamente numa casa de familiares também evangélicos, reencontrei uma pequena reprodução em relevo das “Mãos do Apóstolo”. Ao identificar quase displicentemente a obra, a dona da casa olhou-me com um sorriso e perguntou-me se conhecia a história por detrás dessas mãos. Não recordava de me terem ensinado tal coisa na escola por isso pedi-lhe o relato. Resumidamente, começava com uma família pobre e numerosa na qual 2 filhos, Albrecht e Albert, desejavam ser artistas. Infelizmente não havia dinheiro para ambos estudarem o que ambicionavam. Num Domingo, chegados da igreja, os dois irmãos da família Dürer tomaram a decisão de sustentar-se mutuamente no seguinte esquema: durante 4 anos Albert trabalharia numas minas para sustentar Albrecht que iria para a Academia de Artes de Nuremberga. No fim desse período trocariam de funções.
Por meses e meses Albert labutou arduamente nas minas, enquanto Albrecht fazia furor na escola, suplantando os seus próprios mestres. Quando os 4 anos passaram, o artista regressou, como combinado, para efectuar “a troca”. Contudo, em lágrimas Albert mostrou as mãos ao irmão, mãos endurecidas pelo trabalho pesado, mãos defeituosas e magras, dedos partidos e inutilizados pela dura vida que o tinha acompanhado nos últimos tempos. Albert jamais poderia ser um artista e Albrecht, sentindo-se limitado para retribuir, condenou aquelas mãos feias a serem uma das mais bonitas figuras de sempre.
Era tudo.
Uma história triste depois e eu ,por curiosidade (ou por aquele factor que às vezes nos leva a ficar no sofá e condescender com os enredos das telenovelas), decidi saber qualquer coisa mais sobre o artista. O que descubro é surpreendente: Dürer foi um dos primeiros protestantes, extremamente admirado pelo próprio Lutero que publicamente chorou a sua morte.
Uma história triste depois e a figura “Mãos do Apóstolo” (mais conhecido como “Mãos de oração”) tinha recuperado da frieza académica congelada na minha cabeça desde o 11º ano. Quando me ensinava que o alongamento e a defeituosidade dos dedos se devia aos naturais amorfismos da corrente maneirista, a minha professora de História de Arte do liceu estava a cometer um erro, no mínimo, sentimental.
Aqui não há morais da história. Talvez eu me tenha cingido a um discorrer inútil sobre memórias. É provável, mas há coisas não necessariamente importantes com as quais identifico o meu protestantismo básico, sejam elas bancos de madeira, capas de antigos hinários ou as mãos do Dürer.
Digo “não” à “sacralização da Arte sacra”, digo o mesmo a qualquer promiscuidade entre culto e imagens, mas para a minha nova casa em Tondela já me imagino a agradecer a Deus a refeição com uma reprodução das “Mãos de oração” na parede atrás de mim. Do outro lado da cidade, e isto é mesmo verdade, a banca dos quadros e pinturas da feira local estende-se mesmo em frente da casa da minha professora de História de Arte do Liceu.
Samuel Úria


Das primeiras aulas, dos primeiros estudos e leituras, das primeiras incursões na filosofia da religião, ficou um ensinamento: "a experiência não é normativa"!
Curiosamente, a minha experiência tem-me ensinado que a experiência não é outra coisa senão normativa! Mas eu percebo a ideia.
O que acontece comigo, não acontece necessariamente com outra pessoa e daí a impossibilidade óbvia de fazer depender a construção teórica das histórias de cada um. Uso o termo histórias propositadamente, pois creio que a história, ou as estórias pessoais, ocupam hoje por usurpação o trono anteriormente ocupado (também por usurpação) pela infalível lógica dedutiva.
Ontem queríamos compreender o mundo, construir uma ética e uma moral, saber de onde vínhamos e para onde íamos, e o que fazer entretanto. Para descobrir esses absolutos (supostamente ao alcance da nossa razão caída) deveríamos fazer uma construção teórica, lógica e dedutiva, onde a experiência pessoal não deveria ter lugar.
Hoje, provavelmente as mesmas perguntas já não farão sentido, mas se alguma construção houver, far-se-á seguramente com outros materiais. Os tijolos hoje serão os (vários) sistemas de crenças do indivíduo, as suas histórias, a sua compreensão do mundo, as suas limitações e medos, enfim, a sua subjectividade.
Mudam-se os tempos e vão-se mudando os materiais, mas o que não muda é a necessidade de construir alguma coisa. Nenhum de nós escapa ao fado de ter de decidir por que caminho vai, porque Deus quis assim. Todos fazemos isso. Todos os dias e muitas vezes ao dia, exercemos a nossa liberdade existencial. Optamos, escolhemos, rejeitamos, esperamos, aprendemos, ou fugimos, mas somos nós que decidimos. E a nossa praxis é indisfarçavelmente sustentada pela nossa construção teórica.
Tenho muitos caminhos que vão dar a lugares muito diferentes. Tento iluminar as encruzilhadas lógicas com a minha experiência (que assim faço normativa), e construo as minhas teorias. Pelas minhas teorias, faço as minhas escolhas.
E assim vivo: aposto.
Tiago Branco

O folheto, deixado junto à caixa Multibanco, fala de salvação. Cita, destacadas ao centro, as palavras do Apóstolo Paulo aos Romanos: “A salvação é uma dádiva gratuita de Deus.”
Pego nele, enquanto a máquina processa a quantia pedida, e reparo, então, nas letras vermelhas ao fundo da página: “Venha recebê-la”. Abro o folheto e, já sem surpresa, descubro a publicidade aos cultos, vários em número e em finalidade, onde a Igreja Universal do Reino de Deus disponibiliza a salvação.
Sem surpresa, porque a contradição evidente entre a frase de Paulo e o apelo rubro, mais abaixo, demonstra, desde logo, a deturpação da doutrina bíblica. A gratuitidade da salvação não tem só a ver com o preço, seja em dinheiro, sofrimento ou cumprimento de rituais. Ela implica também que não existam lugares ou pessoas com poderes especiais na sua administração. Segundo o Novo Testamento, a salvação é um assunto a ser tratado unicamente entre cada ser humano e Deus. Não “se vai receber”. Não espera por nós na mão de um qualquer intermediário. Aceita-se. Ou rejeita-se. Nada mais.
Enquanto percorro o caminho de regresso, o dinheiro já guardado na carteira, vou pensando no folheto, e em como estas denominadas “novas seitas” usam, afinal, falácias tão antigas. Muda-se o cenário, muda-se o ritmo, e até, como neste caso, o sotaque. E o sinal indicando o caminho errado, velho de muitos séculos, lá continua, perigosamente disponível.
Pedro Leal

Já chegou quinta-feira, dead-line para a participação nos Animais Evangélicos, e o problema mantém-se: o que poderei escrever se a fé me impele ao silêncio?
Penso nisto. Em qualquer instituição, o dever dos compromissos assumidos perante os outros obriga-nos a dobrarmos o espírito com a força da necessidade. Em esforço deverei fazer nascer em mim as palavras de que não sinto vontade nem para as quais encontro inspiração.
Lembro-me dos profissionais da Fé, daqueles cujo sustento depende o exercício do palavrear quotidiano sobre Deus. Tento ser honesto. O assunto é demasiado sério para mim e, como tal, não irei usar ironia. Poderia fazer uma pirueta e sacudir a água do capote, dizendo: “Mas como é que eles fizeram para conseguir domar o Espírito Santo? Como é que O conseguem usar para os seus propósitos, as suas obrigações perante os outros?” Mas não é, realmente, isso. Reconheço que sei muito pouco, mesmo quase nada, sobre a fé alheia. “Cada um sabe de si.” Não foi esta uma das principais mensagens de Jesus? Não devo julgar. Tenho é de olhar para mim e encarar o meu problema sem meter os outros ao barulho. Afinal, que sei eu de depender financeiramente de uma instituição que espera, e exige de mim, pelo menos uma revelação em cada domingo? Que sei eu de, dessas palavras obrigatórias depender o sustento da minha família?
Não me sai da cabeça a célebre frase “O Espírito sopra onde quer”. E, ao ‘onde’ teremos de juntar obrigatoriamente o ‘quando’. Se eu estou nas mãos de Deus, como acredito estar, como O poderei obrigar a dar-me palavras que Ele acha que eu não deva dizer?
Fica a pergunta, sendo que, perante ela, assumo a minha perplexidade. Ao contrário de alguns amigos cristãos que me são queridos, não tenho nem metade das respostas para as perguntas que me faço. E, se as tiver no momento imediato antes da minha morte, não poderei deixar de pensar que algo correu terrivelmente mal.
Olho agora para as linhas que escrevi. Surge-me uma ideia: talvez tenhamos sempre, afinal, algo para dizer em termos de fé. Só que pode não ser o que as pessoas estarão à espera. E nisto, o Espírito Santo, como sabemos, pode-se dizer que não tem par, passe a redundância perante a sua omnipotência.
João Leal

Como aprendiz de intelectual que sou, acerco-me de vários livros. O sono tenta-me no meio da leitura. Insisto. Acabo por adormecer. Vozes ao fundo. Falam-me do falhanço do projecto da igreja. Tento reagir. Por saber que dentro dela dificilmente se sobrevive, sempre soube que fora dela seria o pior lugar para estar. Recupero forças através dos meus legalismos dominicais. Sou um crente no sistema. O sistema é podre. O sistema é honesto.
Agora apenas uma voz. Fala de projectos. De visões para insuflar a comunidade falida. Arrepio-me. Reavivamentos e células. Contra o evangelho da eficácia riposto com a eficácia do evangelho.
Mas o som sibilino volta a investir. Confronta-me com estastísticas que indicam que os crentes atribuem cada vez menos valor aos procedimentos institucionais. O que interessa é o espírito. Acerco-me do meu escudo contra místicos-fervorosos-em-Peugeots-206 e demais espécies demoníacas. O conflito intensifica-se. Revolvo-me na cadeira. Caem ao chão dois volumes do C.S Lewis e o Guia Para Escapar A Evangélicos Obcecados Por Tolkien. Acordo.
Suspiro. Apercebo-me que foi um sonho. Repentinamente, um espectro esgueira-se para trás da estante. É o Mafarrico que julgara ser apenas domíno da vigília! Dentro da minha esconsa cela, procuro alcançar o tinteiro e atirá-lo à satânica cabeça. Acerto em cheio. O Tentador bate em retirada. Volto aos livros. Ele acabará por voltar.

Nota: Não confundir os eventos aqui relatados pelo autor com os do velho monge alemão. Já agora: Martinho Lutero nunca desejou deixar de ser católico. Não nos lamentemos. Em breve os protestantes desembaraçar-se-iam de ilusões lascivas acerca de cândidas renovações eclesiásticas.
Tiago de Oliveira Cavaco